Escrevi uma carta aos Srs deputados da Assembleia Legislativa. Não sei se terá algum efeito, mas sei que ficar quieta esperando as coisas acontecerem também não dá resultado.
A carta:
Sumaré, 28 de agosto de
2014.
Srs Legisladores,
Andrea Bocelli, tenor
italiano, nasceu com glaucoma. No
contexto europeu de 1960, a Itália, oferecia alguns recursos para aquele bebê.
Em suas memórias, descritas no livro “A música do silêncio”, relata a
importância da figura materna para seu desenvolvimento.
Ao perder a visão completa,
com 12 anos, descreve os sentimentos da mãe, ela temia que o filho vivesse
eternamente na escuridão, até então ele via cores e sombras.
Meu filho é cego, mas não
vive na escuridão, nunca viu a luz, não sabe e não pode discernir entre luz e
escuridão. Se cegueira congênita é escuridão para os videntes, cegos não podem
sentir falta de luz por nunca ter visto a luz.
Crianças pequenas, videntes
ou não, precisam ter (e disso sentem falta), qualidade de vida, ampliando essa
qualidade para todas as definições possíveis que o dicionário descreve para tal
palavra. Meu filho necessita de terapias de apoio, necessita de recursos
financeiros (como qualquer outra criança), por isso trabalho, ciente das minhas
responsabilidades e compromissos financeiros, sociais e educacionais com meus
filhos (além desse menino cego, tenho mais duas crianças), trabalho, em
parceria com meu marido, para suprir tais demandas.
Sou professora efetiva
atuando na rede estadual de ensino, e aliando interesse profissional e pessoal,
estou fazendo pós graduação em educação especial.
Um fato que se destaca, na
legislação nacional e estadual sobre inclusão e deficiência é o largo amparo
jurídico, garantindo direitos humanos aos deficientes. A Declaração de
Salamanca (Brasil, 1994), incita os governos a: “Promover e facilitar a
participação de pais [...]” no atendimento das crianças com
deficiência.
O Decreto 3.956/2001, o
Brasil comprometeu-se a “realizar intervenção precoce, tratamento,
reabilitação, educação [...]” para garantir melhor nível de
independência e qualidade de vida para as pessoas com deficiência.
Neste sentido, consciente
que é dever do Estado e da família a educação de uma criança, princípio constitucional,
meu filho participa de programas de reabilitação desde os 5 meses de idade.
Diante da realidade social e econômica que se apresenta no país, é impossível
parar de trabalhar para acompanhar meu filho ao tratamento terapêutico.
Minha mãe, uma senhora de 65
anos, tem realizado essa função diante da realidade ora descrita. Porém, se
agigantam as dificuldades para uma senhora da idade dela carregando no colo, de
ônibus, um menino grande de 3 anos (ainda não anda com autonomia devido ao
atraso que a cegueira pode provocar no desenvolvimento de algumas crianças
cegas congênitas).
Quando tomei conhecimento da
PEC 15 de 2011, em tramitação na Assembleia Legislativa, ficou nítida a
oportunidade de trabalhar e acompanhar meu filho aos atendimentos terapêuticos
que acontecem semanalmente. Porém, qual não foi minha consternação ao observar
que a PEC (que reduz a jornada do funcionário público em 50%, sem prejuízo dos
vencimentos, para acompanhar filhos deficientes à tratamentos terapêuticos),
ainda não foi votada, apesar de tramitar desde 2011.
Srs Deputados, quais são os
entraves para que ocorra a votação dessa PEC?
Tenho enviado e-mails
constantes para vários legisladores, inclusive para o autor da PEC, Carlos
Gianazzi, e não respondem nem por spam. Fico imaginando o grau de interesse do
Sr. Samuel Moreira, presidente da Assembleia, para colocar a PEC na ordem do
dia. Afinal, legislar em prol de deficientes e mães de deficientes causa algum
eco e impacto politico em período de eleições? Quantos funcionários públicos
existem com filhos deficientes no estado de São Paulo? Um número irrisório para
haver preocupação com eles?
Fico fazendo minhas
conjecturações acerca do trabalho que os Srs realizam, imagino as prioridades,
o tempo que dispõem para as votações, o tempo para realizar articulações políticas,
o tempo para realizar campanhas eleitorais, talvez tempo para convenções
partidárias....em outros momentos observo que independente do meu tempo preciso
ensinar os alunos, cuidar da indisciplina constante sem perder a razão, assinar
documentos oficiais, planejar aulas, atender os pais quando procuram, ouvir
alunos que precisam/querem desabafar sobre situações cotidianas por falta de
estrutura familiar, me reinventar a cada dia para concorrer com todo o aparato
externo à escola, que seduzem os alunos à não aprendizagem.
Sem falsa modéstia,
trabalhando a tantos anos na mesma Unidade escolar, meu tempo faz valer tudo
isso. Convido ou desafio qualquer um a mapear meu trabalho, ver o que realizo
na sala de aula com meus alunos, isso não é mérito, é obrigação, sou paga para
realizar esse trabalho, responsabilidade e compromisso é o mínimo que qualquer
trabalhador deve ter na atividade que desempenha. Volto às minhas
conjecturações acerca dos Srs: Qual o compromisso e responsabilidade com o
trabalho que são pagos a realizar? Imaginam que uma emenda constitucional não
faz diferença na vida de seus eleitores, que bem ou mal confiaram aos Srs o
oficio de legislar em prol das necessidades do povo?
Srs deputados, já viram a realidade
de uma criança deficiente, a realidade de uma mãe que luta pela independência e
autonomia do filho? Quero romper com a lógica capitalista, que supõe, em
detrimento de todo aparato da legislação, que deficiente não é produtivo. Meu
filho será um homem produtivo, para isso tenho empenhado e empenharei todo
sopro de vida que se materializa em minha existência.
Srs deputados, tenho enviado
constantes e-mails aos senhores, questionando e pedindo a votação da PEC. Vou
continuar nessa mesma marcha, hoje, amanhã e até ver o desenrolar dessa
proposta de emenda constitucional. O que
mais me resta? Como posso sensibiliza-los para essa causa? Meu filho não
precisa de brinquedos, não precisa de ibope, não precisa e não é usado por mim
para conseguir parcos benefícios que não levam à uma vida autônoma e
independente. Não realizo campanhas em redes sociais para angariar fundos
financeiros usando a deficiência do meu filho.
Srs deputados, volto a
questionar, quais são os entraves para realizar a votação da PEC 15/2011?
Atenciosamente
Elaine C. de O. Nunes