Finalmente estou estudando deficiência visual, cansada, realizada e grata a Deus é meu estado de espirito. Posso dizer que tenho aprendido, posso dizer que em minha busca cega para me encontrar na terra de cegos, pequenas luzes começam a refletir sob meus olhos. Fico pensando nisso e me surpreendo ao perceber que o Rafa sendo cego enxerga melhor que eu.
Diante dessa correria da vida, a operação matemática da multiplicação entrou em cena, pois tenho multiplicado meu tempo (nem imagino como), e faço questão de ser e estar presente na vida dos meus filhos.
Faço questão por exemplo de levar e buscar os dois na escola (Rafa e Gabriel; infelizmente já não posso fazer o mesmo com a Heloísa, pois os horários ficaram complicados, acompanho a vida escolar dela de outra maneira).
Rafa com 3 anos é um menino sapeca, apesar de algumas dificuldades motoras e linguísticas ele tem um bom cognitivo. Tudo que falamos com ele compreende, apesar de expressar somente algumas poucas palavras.
Diante dessa dita esperteza tenho sido criteriosa com ele em relação às mordidas. Pois é, ele morde todo mundo que sobrar perto da boca dele, Gabriel coitado, já está até sobressaltado com os dentes do Rafa.
Eu sempre preocupada com o comportamento social do Rafa, fui orientada a procurar ajuda de psicólogos para ele parar de morder. Preciso tentar provar que o Rafa aqui em casa é corrigido, que não compensamos a cegueira dele com nada, não sofremos de culpa eterna por ele ter nascido cego, portanto criamos ele para ser gente, para ser humano como qualquer outro, sendo assim ele é severamente corrigido quando morde, seja na escola, seja em casa.
Mas fico "implicada" com o fato de algumas pessoas não acreditarem que corrigimos ele. Fiquei pensando se deveria colocar câmeras na minha casa para provar a educação que damos à ele. Depois pensei: "Preciso provar que ele é corrigido?"
É meu filho, quero mais que qualquer outra pessoa no mundo que ele se torne um homem feliz e independente, não vejo barreiras para isso acontecer.
Comecei a questionar os motivos dele morder tanto, (Confesso que caí na armadilha e fiz coro com algumas pessoas: "Será que tem relação com a cegueira? Será que ele está apresentando algo mais além da cegueira?").
Diante deste cenário maluco, ao busca-lo na escola, descobri o que já sabia, mas havia apagado da minha memória: Algumas crianças desta idade mordem mesmo, outras crianças da turminha, lindas, simpáticas e videntes também mordem, confesso que foi um alivio recordar isso, era o que precisava para tirar essa nuvem da minha cabeça, é claro que isso não servirá de desculpa para deixa-lo sem correção.
A questão essencial que fica disso tudo é a falta de perspicácia de algumas pessoas ao olhar para uma criança deficiente, a falta de perspicácia ao olhar para a família e duvidar que o menino é corrigido em casa.
Não entendo esse olhar cego e fragmentado de algumas pessoas....ou melhor entendo como funciona: "O menino cego não está sendo corrigido por ser cego, os pais o protegem e querem compensá-lo pela cegueira". O tempo dirá como tem sido a educação, a correção e a instrução que temos oferecido ao Rafael.