sábado, 29 de março de 2014

Ele morde???!!!!

Finalmente estou estudando deficiência visual, cansada, realizada e grata a Deus é meu estado de espirito. Posso dizer que tenho aprendido, posso dizer que em minha busca cega para me encontrar na terra de cegos, pequenas luzes começam a refletir sob meus olhos. Fico pensando nisso e me surpreendo ao perceber que o Rafa sendo cego enxerga melhor que eu.
Diante dessa correria da vida, a operação matemática da multiplicação entrou em cena, pois tenho multiplicado meu tempo (nem imagino como), e faço questão de ser e estar presente na vida dos meus filhos.
Faço questão por exemplo de levar e buscar os dois na escola (Rafa e Gabriel; infelizmente já não posso fazer o mesmo com a Heloísa, pois os horários ficaram complicados, acompanho a vida escolar dela de outra maneira).
Rafa com 3 anos é um menino sapeca, apesar de algumas dificuldades motoras e linguísticas ele tem um bom cognitivo. Tudo que falamos com ele compreende, apesar de expressar somente algumas poucas palavras.
Diante dessa dita esperteza tenho sido criteriosa com ele em relação às mordidas. Pois é, ele morde todo mundo que sobrar perto da boca dele, Gabriel coitado, já está até sobressaltado com os dentes do Rafa.
Eu sempre preocupada com o comportamento social do Rafa, fui orientada a procurar ajuda de psicólogos para ele parar de morder. Preciso tentar provar que o Rafa aqui em casa é corrigido, que não compensamos a cegueira dele com nada, não sofremos de culpa eterna por ele ter nascido cego, portanto criamos ele para ser gente, para ser humano como qualquer outro, sendo assim ele é severamente corrigido quando morde, seja na escola, seja em casa.
Mas fico "implicada" com o fato de algumas pessoas não acreditarem que corrigimos ele. Fiquei pensando se deveria colocar câmeras na minha casa para provar a educação que damos à ele. Depois pensei: "Preciso provar que ele é corrigido?"
É meu filho, quero mais que qualquer outra pessoa no  mundo que ele se torne um homem feliz e independente, não vejo barreiras para isso acontecer.
Comecei a questionar os motivos dele morder tanto, (Confesso que caí na armadilha e fiz coro com algumas pessoas: "Será que tem relação com a cegueira? Será que ele está apresentando algo mais além da cegueira?").
Diante deste cenário maluco, ao busca-lo na escola, descobri o que já sabia, mas havia apagado da minha memória: Algumas crianças desta idade mordem mesmo, outras crianças da turminha, lindas, simpáticas e videntes também mordem, confesso que foi um alivio recordar isso, era o que precisava para tirar essa nuvem da minha cabeça, é claro que isso não servirá de desculpa para deixa-lo sem correção.
A questão essencial que fica disso tudo é a falta de perspicácia de algumas pessoas ao olhar para uma criança deficiente, a falta de perspicácia ao olhar para a família e duvidar que o menino é corrigido em casa. 
Não entendo esse olhar cego e fragmentado de algumas pessoas....ou melhor entendo como funciona: "O menino cego não está sendo corrigido por ser cego, os pais o protegem e querem compensá-lo pela cegueira". O tempo dirá como tem sido a educação, a correção e a instrução que temos oferecido ao Rafael.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Teoria do apego

Após o nascimento do Rafael iniciei meus estudos sobre bebês que nascem cegos.
A primeira lição que tive foi sobre a Teoria do apego, ou seja, a teoria da formação de vínculos afetivos entre mãe e filho. Ficava pensando como fazer o Rafa entender que o aceitava e amava  como era, já que o olhar é fundamental para construir essa interação entre mãe e filho.
Resolvi usar a voz e o toque (afinal não tinha outra opção). Cuidava, e cuido, dele com o maior carinho, dedicação e atenção, sempre conversando e dizendo as cores das roupas, dizendo que estava muito bonito. Lembro que com uns 7 meses, todas as vezes que o arrumava para sair,  enfatizava muito que estava lindo com aquela roupa e ele ria muito e se agitava mostrando felicidade.
Quando ele fez 7 meses voltei trabalhar, o dia inteiro, minha mãe passou a cuidar dele e leva-lo  na instituição de readaptação  e também na clinica em que é acompanhado com a T.O. Neste momento não imaginei que talvez o laço construído com minha mãe fosse similar ao que deveria ser construído comigo, pois deixei a Heloísa  com quatro meses para trabalhar e construímos um forte laço afetivo.
Com o passar do tempo verificamos um certo atraso na linguagem (tenho dúvidas sobre esse atraso, pois as crianças são singulares, únicas e tem seu próprio tempo de aprendizagem). Então qualquer som emitido era festa.
A primeira palavra significativa que ele falou foi: BOBÓ, chamava bobó o tempo todo. Não me aborreci, pois sempre tive convicção que construí uma ótima relação afetiva com o Rafa, então ele resolveu soltar outra palavrinha: PAPÁ, para chamar o pai.
Bobó e papá não saiam da boca dele, eu pensava: "Esse menino não vai falar mamãe?" Depois falou outras coisas sem sentido, outras com sentido, como água, bó para bola e nada de mamãe.
Piorou a situação quando engravidei do Gabriel e aos 4 meses de gestação não pude mais pegar o Rafa, pois tive algumas complicações. Era somente o papai e a vovó que cuidavam dele, minha irmã até dizia: "Ele vai ficar ainda mais grudado com o pai, mesmo depois do Gabriel nascer".
Após o nascimento do Gabriel fiquei muitos meses em casa, cantei, brinquei, cuidei e finalmente aos 3 anos de idade Rafa começou a sentir falta da mamãe, chorava quando eu precisava sair, e finalmente falou mamã. Não posso negar que fiquei muito feliz.
Palavra tão doce aos meus ouvidos saindo da boca dele, agora me procura nos cantos da casa em que sempre fico, chamando mamã. Ele sabe onde gosto de sentar para escrever, estudar e meu lado da cama; não me encontrando em nenhum destes locais vai para cozinha e área de serviço.
Lembrando disso tudo  me sinto feliz por ter construído o tal do apego com o Rafa, ficava confusa quando lia que muitas mãe se recusam a cuidar dos próprios filhos por nascerem deficientes, por não suportarem a dor de olhar para um filho que não foi o sonhado. Sempre me recusei a ser esse tipo de mãe, entendi que ele deveria ser amado para amar, ter carinho para demonstrar carinho, receber beijos e abraços para aprender fazer o mesmo.
Atitudes óbvias na relação mãe e filho, porém não é da mesma maneira para um bebê que nasce cego, ele não aprende com o olhar, mas com a experiência vivida, sentida.
Nosso apego hoje é como o apego que tenho com a Heloísa e o Gabriel.
Meu anjo Rafa, amor infindável.

domingo, 2 de março de 2014

O Livro de Eli

Minha fé em Deus aumentou muito depois que o Rafa nasceu. Hoje mesmo, ensinando para Heloísa algumas formas de agir quando se sentir perseguida ou insultada na escola, disse que passei por isso quando o Rafa nasceu, pois algumas pessoas disseram que ele era meu castigo. Expliquei para ela que nunca liguei para tais comentários, pois Deus é minha força, disse que não sei os motivos Dele ter mandado um filho cego, mas que também isso já não tem sentido.
Minha Heloísa, em sua infinita "sabedoria" infantil disse:
 
"Eu sei mamãe, é pra você escrever na internet e ajudar outras mães que tem filho cego"
 
Isso que ela falou foi significativo. Fiquei pensando e mais tarde, vendo o filme "O livro de Eli", entendi que Deus fala nas pequenas coisas.
Uns 15 dias antes do Rafael nascer, Gê, meu querido marido, cursava o último ano da faculdade e um amigo deu um filme à ele: "O livro de Eli".
O filme ficou sobre a mesa da sala por vários dias. Imaginei que era emprestado, pois sempre pegava filmes deste amigo; quando perguntei ele disse que esse era nosso. Paulão, o amigo, chegou e disse: "trouxe um filme para você cara!". Não falaram sobre a história do filme.
Guardei o filme na estante.
Durante o pré-natal do Rafa nunca vi o rosto dele, sempre esteve de costas, "olhando" para minhas costelas, quando consegui visualizar rapidamente o perfil dele, já estava muito grande, não era mais possível ver detalhes e pelo protocolo de ultrassonografia em gestantes, os detalhes devem ser vistos no exame morfológico, que ele virou as costas.    
Dois fatos (o filme e a ultrassonografia) que já revelavam algo da parte de Deus para nós. Ou que revelavam o que enfrentaríamos com o nascimento do Rafael.
Durante uma das visitas do Pastor Vagner, ele indicou O livro de Eli, minha cunhada/irmã Viviane já até havia providenciado o filme, consternação geral quando falei que já tínhamos esse filme.
Vi o filme com uma concentração que nunca tive em filme nenhum, quando vi aquelas letras em braile, no final do filme, fiquei pensativa e surpresa, entendi que Eli era cego, aquelas letras em braile adquiriram outro significado, outro sentido no meu modo de conceber a leitura e escrita por pessoas cegas.
Hoje, revendo o mesmo filme, vejo que tantas coisas já se passaram. Como disse logo cedo para Heloísa, não sei e não entendi os motivos de Deus, e isso não é mais importante, pois o Rafa é em todos os sentidos especial, magnifico, tem sido o grande professor mirim da minha casa, ser humano sensacional que nos ensina a cada instante a tecer novos olhares para a vida, para as dificuldades.
Creio que Deus fala nos detalhes e hoje tem mostrado que meu Rafa vencerá todos os obstáculos e as barreiras que a cegueira podem impor.
Rafa tirará o rosto das minhas costas e vai "olhar" o mundo de frente, cabeça erguida rumo ao caminho que Deus tem preparado pra ele.
 
 
 
 

"PORQUE TENDES MEDO?!"

"PORQUE TENDES MEDO?!"  No dia 07 de junho desse ano, Rafa fez uma cirurgia para correção no quadril, estava com uma subluxação em...