Alguns bebês ficam sorrindo enquanto dormem. Dizem as avós que os anjos estão brincando com eles em sonhos. Pensando nisso lembrei que nunca vi o Rafael sorrindo enquanto dorme, fica muito sério, às vezes muda a expressão, mas sorrir dormindo nunca vi.
Este pensamento me levou à antigas questões sobre os sonhos para cegos congênitos, os sonhos são repletos de imagens, se ele não vê imagem durante a vigília, será que vê imagens durante o sono? Se sonha, sonha com quê, com quem? Sonha com os sons ou imagens construídas através do tato?
Com estas questões rodando na cabeça fui procurar textos que tratam do assunto, leiga nas questões neurológicas, achei poucas coisas que pudesse entender de fato. Porém, encontrei outras informações sobre a cegueira que considero relevante deixar registrada.
Nas pesquisas encontrei um blog de uma professora doutora, que trabalha com educação especial; encontrei informações acerca de sonhos e imagens neste blog, mas nada conclusivo (não para mim).
O blog é da Lília Campos : http://liliacamposmartins.blogspot.com.br.
Encontrei também um livro, de Mário Alves de Oliveira, com o título "Claro ou escuro". Neste livro, o autor relata sua experiência com a cegueira e tudo que implica ser e estar cego num mundo de videntes.
Um determinado trecho do livro ele coloca que Thomaz Carroll, líder no campo da reabilitação nos Estados Unidos, estudando os problemas dos cegos, catalogou perdas relacionadas à cegueira, porém entendo que nenhuma destas toca o Rafael, pois ele não pode perder o que nunca teve.
O fato é que a falta de visão coloca algumas dificuldades para bebês que nascem cegos, dificuldades psicomotoras, o processo de aprendizagem é mais lento. Porém existem os bebês cegos que o desenvolvimento é similar ao dos bebês videntes.
Enfim, o meu menino cego aprende, devagar, mas aprende. Tem caminhado à passos de tartaruga, e quem não acompanha a vida dele, muitas vezes estranha o atraso e isso não é peso nem vergonha pra nós, ao contrário, vibramos com cada passo conquistado, contamos e cantamos cada conquista como mais uma vitória do guerreiro.
Hoje denominou a bola: disse BÓ agarrado com a bola, nem sei quem ficou mais feliz, a Heloísa, eu ou ele. Depois, falava BÓ todas as vezes que brincava com a bola. O Rafa viu minha alegria e da irmã dele, não precisou dos olhos para ver nossa felicidade por uma conquista dele e isso é ser poeta.
O poeta vê algo mais, enxerga além da beleza, enxerga com mais intensidade as cores, o cheiro das flores o som da natureza e do mundo. O poeta entende e vê as sutilezas das pessoas, das rosas, das cores, da vida. Para ser poeta não basta querer ser é preciso ser. Meu Rafa é um poeta, um poeta que ainda não canta e não escreve os amores ou as dores da vida, ainda assim um poeta que vê as sutilezas.