Por estes dias passei por uma situação inédita e inusitada com o Rafa, sabia que um dia passaria por algo semelhante, mas não da maneira como aconteceu.
O Rafa, como qualquer criança, tem grande interesse por crianças. Em casa nestes últimos dias de férias observei ele com outra criança, que não são os primos nem os irmãos.
Se tem algo que dificilmente erro é quando vejo o olhar de uma criança, percebo as intenções dela de imediato (afinal meu oficio é criança). Aquela criança procurando o Rafa (Trocava o nome do Rafa toda hora, por mais que eu corrigisse, o chamava por outro nome), se ajoelhou em frente ao meu menino encarando ele, como se quisesse confirmar a cegueira, quando vi aquela cena identifiquei a maldade, sim a maldade, aquela inocente criança pensava: "é com esse que posso me desforrar". Quase enfartei quando identifiquei aquilo.
Eu, como uma autêntica mãe coruja, corri e peguei o Rafa (no colo), dando desculpas bobas para aquela criança que dizia que queria brincar. Não consegui segurar o Rafa por muito tempo, não demorou voltou para o campo de guerra, meus sentidos todos em alerta estavam ali. Respirei fundo e pensei:
"preciso deixar, ele precisa aprender a se defender, mas aquilo me matava."
Fiquei com os sentidos alertas no campo de guerra armado pela criança meliante, onde levava meu menino cego e "indefeso". Por uma fração de segundos o silêncio reinou, não via, nem ouvia nada, pronto, desgraça na certa, meu cérebro conseguiu produzir a pior das tragédias (sem exagero que chegava a ficar com as mãos geladas).
Quando cheguei ao campo de guerra, disfarçadamente, a criança meliante estava de costas para mim, percebi que o Rafa estava bravo, a criança tentava obrigar ele fazer coisas que não queria e eu observei, depois tocava nele e se afastava em silêncio e Rafa ficava nervoso, com as mãos erguidas procurando. Dava pra ver as intenções cruéis em cada ação da criança, isso porque estava na minha casa. Eu pensava:
"Pai celestial isso é uma criança????!!!!"
Porém, um momento que a criança segurou forte as mãos do Rafa, ele deu um grito, segurou forte a mão da criança também e...mordeu o meliante com toda força dos dentes. Morri de rir por dentro, mas mantive a pose de mãe e falei sem nenhuma convicção:
"Rafa não pode morder."
Acho que o Rafa entendeu meu não recado, pois riu e veio pro meu lado. O meliante nem chorou, arregalou os olhos pra mim e sumiu.
A criança deve ter entendido que ser cego não é ser bobo da corte.