Estive pensado no saldo do ano com Rafael.
Nossa que ano difícil!
Tantas lutas....batalhas....fatos novos para gerenciar e tocar a vida trabalhando fora, cuidando de todos os outros afazeres. Como disseram outro dia: "É como estabilizar um avião no ar, sem vacilar, senão morre um monte de gente".
Hoje é quase o fim de 2017, daqui algumas horas estamos entrando em 2018, e apesar de difícil, cheio de lutas, tivemos avanços.
Hoje, depois desse ano tão complicado e de tantas coisas que já vivi com o Rafa, tenho um grito travado na minha garganta para todo mundo:
"GENTE NÃO É FÁCIL A VIDA DAS MÃES QUE PASSAM O QUE EU PASSO COM RAFAEL!"
Vejo tanta gente atribuindo juízo de valor às ações das mães. Precisamos humanizar o olhar para as mães, mulheres que caminham léguas por seus filhos, algumas desistem no meio do caminho por tanta dificuldade que se estende por toda a jornada.
Para ilustrar: Uma pessoa fica doente e governos/legislações garantem o remédio gratuito em determinado estabelecimento, quem zela e cuida do enfermo vai buscar o remédio, mas é encaminhado para outro setor que só atende até 12H, no outro dia volta e dizem que falta o relatório médico, depois de conseguir o relatório dizem que falta ser periciado por outro médico, depois é encaminhado para a assistência social....e vai passando o tempo sem o remédio por meses...anos.
Muita gente morre no meio do caminho, outros desistem, outros entram com ações judiciais para pedir para o juiz, pagando advogados, algo que já é direito.
Esse ano precisei entrar com duas ações pelo Rafael e a terceira está a caminho. Não adianta pedir algo que é direito de maneira convencional, sempre precisa de ação judicial, eu e zilhões de mães vivem com pastas arquivadas na cabeça sobre os direitos dos nossos filhos, mas não adianta, é necessário brigar, impor judicialmente, e mesmo assim tem aqueles que resistem às ações, digo do que tenho vivido.
Não é cansativo?
Existem mães que não se dão o direito de chorar, para não fraquejar, então choram nos braços de outra mãe que vive realidade similar, é onde encontramos compreensão, afeto, compaixão, dores trocadas, dores vividas e compartilhadas.
Entendemos nos braços umas das outras o que são os olhares para nossos filhos, quando outros não entendem alguns traços fora do padrão que é considerado "normal"; quem não vive não sabe o tamanho da desorganização emocional e cognitiva de uma criança autista no meio de várias pessoas falando ao mesmo tempo (numa reunião familiar por exemplo), então várias perguntas ecoam, mas poucos escutam as respostas. A mãe pega o filho/a e se retira para um espaço mais tranquilo, queremos colocar na barriga, abraçar, apertar, proteger, mas não dá.
Quem entende isso?
A outra mãe.
Não estou aqui defendendo a segregação de crianças com deficiência e suas mães, mas chamando atenção para essas mulheres, tal como eu, que passam por inúmeras situações que nem é possível nomear como difíceis, e ainda assim precisam sorrir, caminhar e encontrar forças para continuar a brigar.
Eu, como mãe, sei o que sente quando outra mãe troca experiências comigo e as lágrimas rolam, sei de onde vem essas lágrimas, sei que tem hora que não dá pra ser forte e isso não significa rejeição pelo filho com deficiência.
É canseira de lutar, medo de não conseguir amar mais, cuidar mais daquela criança, medo da ação judicial sair negada, medo de não conseguir comprar o remédio que precisa ser tomado, medo de não conseguir vaga na escola, e se conseguir a vaga, medo do filho não ser aceito, medo do filho sofrer, medo dele ser rejeitado, medo do futuro, medo de ter esperança e se frustrar, medo de morrer antes do filho e não saber o que será dele depois da nossa partida (apesar de tentar de todas as maneiras dar toda a independência possível à ele).
O Rafa é um fofo, lindo, esperto, terrível, feliz. Me traz tanta alegria e ensinamento. O maior desses ensinamentos é sobre as mulheres/mães: precisamos de olhares humanizados e sensibilizados para nós, somos somente mães humanas.



