sábado, 23 de março de 2013

Subtração e prótese

O Rafa é uma figura, um grande figurão. Está com o péssimo hábito de fazer contas de subtração, sem ainda saber a lógica de subtrair.
Já tem uns dois meses que lutamos com a prótese dele. Nessa luta, além do pai dele, eu e a avó cuidadora, estão a Sônia e o Diogo, que fazem e cuidam das próteses do Rafael. Na verdade, ele descobriu, e fica muito feliz, que pode tirar os "olhos", colocar na boca e escutar o barulhinho deles tinindo no chão. Isso tem se tornado um pequeno complicador, pois compromete o desenvolvimento da cavidade ocular.
É isto que estou chamando de subtração, tira "partes dele mesmo" para brincar. Existem momentos que ele tira e começa a chorar, pois sabe que vou ficar brava, já entendeu que não deve fazer o que faz, mas acredito que pra ele isso se tornou uma brincadeira.
Hoje passou quase o dia inteiro com a prótese, mas depois das quatro da tarde conseguiu tirar escondido e ficou muito feliz, começou a rir e brincar.
O interessante é que quando ele começou a usar, com apenas 3 meses, eu me preocupava muito, ficava olhando pra ver se estava no lugar, se não estava machucando, se não estava escapando....nossa quanta neurose!!!
Agora não existe complicador, ele tira eu coloco, quando sai do lugar eu arrumo, tiro pra lavar e quando ele tira de madrugada não perco mais o sono.
Esta tranquilidade é fruto da minha fé em Deus, em primeiro lugar, e na certeza que temos feito tudo para que o Rafael tenha uma vida completa, ele não é privado daquilo que precisa pra ter um desenvolvimento adequado.
Ele também está subtraindo as roupas do corpo e os sapatos....já encontrei ele dormindo no berço como veio ao mundo, conseguiu tirar tudo, até mesmo a fralda. Uma cena cômica, se não estivesse uma noite fria.

sábado, 16 de março de 2013

Luzes de ontem e hoje

Hoje vi umas luzes piscando num circo e não pude deixar de recordar que o  Rafael nasceu na época do ano que mais gosto: Natal, acho lindo aquelas luzes piscando, a cidade toda iluminada, adorava visitar a cidade de Paulínia, onde a decoração natalina é intensa e linda.
No ano que o Rafael nasceu, me recordava da alegria da Heloísa quando começou a apreender o mundo através do olhar, principalmente da alegria dela quando via as luzes natalinas, acho que eu gostava tanto que acabava transmitindo à ela. Ficava pensando que ele nunca teria a felicidade de ver as luzes piscando e brilhando de todas as cores, é claro que isso era mais um motivo de tristeza, como se não bastasse a cegueira por si só.
Após as festas natalinas de 2010 esqueci esse assunto e no ano de 2011 as luzes natalinas já não eram tão belas, nem tinham tanta magia como antigamente. Apesar de colocar as luzes em casa (afinal tenho uma criança vidente em casa, que adora as luzes de natal, assim como a mãe adorava), priorizei as luzes que tocam músicas, pois dessa forma o Rafael também poderia participar de alguma forma das preparações natalinas. É claro que ele gostou, riu e apreciou a música, mas acredito que ainda não poderia entender tudo aquilo.
O fato é que ver as luzes deixou de ser significativo pra mim, aprendi a valorizar as pequenas e grandes alegrias que o Rafa nos propicia, aprendi a rir das gargalhadas dele ao escutar um objeto cair no chão, aprendi estar feliz com as gargalhadas dele ao dançar no colo, aprendi a apreciar as gargalhadas dele por mil motivos que encontra, sem ver as luzes, sem ver as cores. Aprendi a contar pra ele o que vejo e ele muitas vezes rir do meu tom de voz...são tantas alegrias que ele coloca na nossa vida que não consigo quantificar.  Aprendi a valorizar o pequeno, o fugaz.
Me alegro, muito, nas alegrias do Rafael. As luzes natalinas fazem parte do passado, meu presente é iluminado por outras pequenas e, muito mais significativas, luzes.

domingo, 3 de março de 2013

Linha de chegada

Fico impressionada com o desenvolvimento de uma criança cega, mesmo sendo esta criança atrasada nas conquistas motoras, como é o caso do Rafa.
Ele já sabe todas as portas da casa, dos banheiros, da sala, da cozinha, dos quartos e outras. Não esbarra em nenhuma delas, nem nas paredes, vai engatinhando (ainda tem medo de andar sem segurar, por isso quando quer chegar em algum ponto mais rápido vai engatinhando), e chega com muita alegria ao destino que quer.
Ficamos olhando e perguntamos pra ele:"Rafa como você sabe que a porta está aí?" Ele dá risada, nem quero imaginar o que ele pensa quando fazemos estas perguntas.
Outra conquista do Rafa, que fico admirando, é descer do sofá e da cama. Eu pensava que ele nunca aprenderia isso, que teria uma dificuldade imensa.....agora o menino vira de bruços  em dois segundos e desce da cama para explorar tudo que encontra. Ainda não sabe subir, está procurando uma maneira de fazer isso, se esforça, levanta uma perna, depois outra, fica suado do esforço, mais ainda não consegue, sei que também essa conquista não vai demorar, pois percebo nele uma certa persistência em conseguir o que deseja.
Estou muito feliz com o desenvolvimento do Rafa, agora ele juntou duas sílabas e formou uma palavra: "bobó", fica falando bobó, o que deixa a vovó quase doida.....diz que ele tá chamando por ela. Procuro observar tudo isso racionalmente para entender se ele está relacionando a palavra ao que deseja, às vezes parece que sim. Já falou "papá" também, que imaginamos ser papai.  E a mamãe? Nada!!!! Mas não tem problema eu espero, logo virá mamãe e a festa vai ser dobrada.
São pequenas e grandes conquistas do Rafael, que alguns podem imaginar: "Ficar feliz com tão pouco?" Para ele são grandes conquistas, tenho visto o que a Dr. Antônia Paula falou: "Na corrida ele sempre estará em último lugar, mas vai cruzar a linha de chegada!"
Estou vendo o Rafa se aproximando da linha de chegada e entendo que tudo está valendo a pena, até as lágrimas daquele luto inicial vejo que estão valendo a pena.

"PORQUE TENDES MEDO?!"

"PORQUE TENDES MEDO?!"  No dia 07 de junho desse ano, Rafa fez uma cirurgia para correção no quadril, estava com uma subluxação em...