Rafa de fato chama atenção. Não que meu filho seja o "cara", ao contrário ele tem todos os itens necessários ao preconceito da sociedade: negro, cego e gordinho (meu amore lindo).
Depois de 4 anos já sei gerenciar muitas situações "estranhas". Agora que fez a cirurgia ocular (revestiu a retina com uma lente), está com alguns pontos discretos nos olhos, agora sim os olhares sobre ele aumentaram.
As pessoas não sabem como se comportar diante de uma criança cega, diante de uma criança com deficiência (fico imaginando se essa recusa em olhar para a deficiência não significa recusa em olhar para a(s) própria(s) deficiência(s)).
Mesmo tendo isso muito claro, ainda sim, tenho profunda dificuldade com pessoas que ignoram a existência do Rafa. Sabem que é meu filho cego, convivem comigo e quando encontro na rua com o Rafa nem olham para o menino. Isso não é comum, pois se encontro alguém que convive comigo e estou com Heloísa ou Gabriel as pessoas olham e cumprimentam a criança.
Ignoram a existência do Rafa, é como uma total negação da vida dele, como negar que ele esteja vivo ao meu lado, negar que nasceu um menino cego, filho da Elaine e do Gerivaldo.
Fico tão chocada que também nego ver o que estou vendo, pois ainda não sei gerenciar essa situação. Meu coração fica comprimido, como podem negar a existência do meu amore? Quando isso ocorre a reação instantânea é protegê-lo, como se ele pudesse ver essa negação, pego no colo, beijo e abraço com força e digo: "Mamãe te ama amore".
Depois lembro que ele não vê, não pode ver quando é ignorado, não pode saber que pessoas que convivem comigo ignoram ele propositalmente pelo simples fato de ter nascido cego.
Acredito que tais experiências me tornam endurecida, fico mais briguenta, com o olhar apurado de uma águia. Ao me deparar com reportagens como da menina Dayse* que nasceu com anoftamia bilateral não vejo beleza, não acho que a mãe é uma heroína por ter se recusado abortar a menina. É mãe, simplesmente mãe e muitas crianças nascem com anoftalmia, microftalmia, e tantos "mias" não viram capa de jornal, não viram noticia, afinal essas crianças estão escondidas nos lugares mais pobres e isolados de cada país do planeta, onde a falta do dinheiro e prestigio social não podem comprar capas de jornais nem noticias, álias a falta de dinheiro não pode nem mesmo comprar os programas de estímulo precoce, que no Brasil é caríssimo e o Sistema Único de Saúde não oferece nenhum tipo de reabilitação precoce. Nessa situação não existe Direitos Humanos, afinal como disse uma pessoa da politica: "já existem muitas leis para garantir os direitos das pessoas com deficiência".
É claro que esse tipo de individuo vive muito longe da realidade brasileira, longe de famílias com crianças deficientes e carentes, embora estejam representado o povo brasileiro em cargos políticos.
Mais fácil ignorar a existência, ignorar a necessidade de programas de reabilitação. Como diz Elsa, no filme Frozen: "Não deixar ver, não sentir...encobrir".
*http://www.jornalciencia.com/saude/mente/4727-anoftalmia-condicao-rarissima-fez-com-que-bebe-nascesse-sem-os-dois-olhos