domingo, 19 de setembro de 2021

"PORQUE TENDES MEDO?!"

"PORQUE TENDES MEDO?!" 

No dia 07 de junho desse ano, Rafa fez uma cirurgia para correção no quadril, estava com uma subluxação em ambos os lados. Corria o risco do osso que conecta perna/quadril escapar do lugar. E se isso ocorresse ele sentiria dor e seria cirurgia de emergência.

Desconfio que ele já sentia algum desconforto ao andar por muito tempo, pois resmungava, parava no meio da caminhada e algumas vezes sentava no chão mesmo. Como Rafa não é oralizado, não consigo saber se de fato sentia dor.

Com todos os arranjos feitos para a cirurgia, a opressão passou a comprimir meu coração. Durante todo o mês de maio, essa angústia e o medo eram uma nuvem sobre a minha cabeça. Eu falava com Deus para não permitir que ele sofresse, depois falava de novo com Deus para colocar paz no meu coração, em seguida falava comigo mesma e perguntava onde estava minha fé.

Em alguns momentos a paz voltava a brilhar como sol espantando a nuvem escura, mas meu cérebro reiniciava o ciclo de angústia e medo ao pensar na cirurgia,  para todos que me viam e convivem comigo  meu rosto e minhas atitudes diziam estar tudo bem. Hábito não saudável que tenho de manter meus medos, angústias e incertezas guardados somente comigo (ando analisando os  motivos que me levam a agir dessa forma).

Esse ciclo de tortura emocional perdurou todo o mês de maio, e uma certeza se instalou: seria complicado. Eu sabia de alguma forma que enfrentaria situações estressantes em relação ao Rafa, sabia que a cirurgia não seria simples (mesmo o médico afirmando que seria algo tranquilo....tranquilo com 3 horas de centro cirúrgico, anestesia geral e peridural). 

O tempo todo eu falava: "Deus não deixa ele sofrer".

Internou no dia 06 a noite no hospital da AACD, deixei os outros dois filhos para trás com a rede de apoio sempre presente em nossa vida, trancamos a casa e fomos. Protocolos de covid, exames clínicos, e todos os procedimentos realizados, Rafa foi para o centro cirúrgico de camisolão, chupeta na boca e sonolento, subi com ele e meu marido ficou no quarto. Entrei no centro cirúrgico, vi colocarem a máscara, anestesista falou comigo, perguntou várias coisas, o médico falou comigo....Rafa dormiu com aquela máscara e me tiraram do centro cirúrgico.

Sai com toda dignidade de uma mãe devastada, meu coração ficou lá dentro com Rafa naquela mesa de cirurgia estreita. A partir daquele momento minha única atividade era olhar para o relógio e esperar o tempo correr, mas ele não correu...rastejou. Livro, celular, rede social, conversa...nada conseguia fazer minha atenção desviar de onde o Rafa estava.

Ao término das 3 horas, me preparei para alguém chamar, mas não chamou. 3 horas e meia, 4 horas, 4 horas e meia de cirurgia e nada de chamarem. Após 5 horas e alguns minutos que tinha entregue meu gordinho, finalmente me chamaram.

Fiquei numa salinha, agarrada ao triângulo que era para ser colocado entre as pernas dele. Tinha uma mãezinha comigo, e olhávamos pela janelinha de vidro da ante sala do "batedouro", esperando alguém falar alguma coisa. A outra mãe falou comigo, disse que ia ficar tudo bem, mas eu não conseguia ouvir direito. Após tanto tempo segurando tantas emoções, foi na salinha esperando meu Rafinha que comecei a chorar.

Angústia, medo, incerteza, aquela nuvem carregada do mês de maio, se apoderou como uma tempestade e perdi a capacidade de racionalizar, de falar para Deus devolver a paz. Naquele momento me tornei olhos turvos na janelinha, mãos em sudorese, taquicardia, nariz escorrendo por trás da máscara...a imagem de uma mãe que perdeu a  luta do controle das emoções. 

Até o médico vir falar comigo, que pode ter durado 10 minutos ou uma eternidade na salinha (depende de qual ponto vista), fiquei lá devastada. A outra mãe foi chamada eu fiquei até o Dr. Mauro vir falar comigo, dizendo que tinha corrido tudo bem, Rafa estava bem, nem tinha precisado de bolsa de sangue (Me perguntei as implicações disso e porque ninguém tinha me avisado dessa possibilidade).

Logo trouxeram meu gordinho, cheio de fios, tubo e uma parafernália digna de "medos". Saiu do centro cirúrgico direto para UTI, para ser monitorado por 24 horas.

A cirurgia levou um tempo maior que o previsto, pois consertar os dois lados do quadril foi mais trabalhoso do que acreditava o médico.

Minhas memórias do dia 07 de junho param nesse ponto. Vendo o Rafa sair com vários enfermeiros ladeando a maca, cheio de fios, tubo, monitor dizendo como estava a pressão, saturação, batimentos cardíacos e outros sinais que dizem sobre a vida. Depois disso, os momentos do dia  07 são como pequenos espasmos de memória: ele acordando, registro que ele não está como ele mesmo, meu marido trocando de lugar comigo, muitos remédios para conter a dor, enfermeiros afirmando que cirurgia em osso dói muito, Rafa ainda tentando entender o que tinha acontecido.....emoções subjugando a memória dos fatos.

Dia 08 logo cedo passou uma equipe multidisciplinar e decidiram que Rafa estava bem para ficar no quarto. E foi assim que iniciou outra jornada, onde novamente minha fé foi provada (ainda não sei se passei). Foi quando percebi que minha oração à Deus sobre essa cirurgia não foi atendida: Rafa começou a sofrer como o bom guerreiro que ele é.

Mas quero afirmar e deixar registrado que AMO DEUS, CREIO NELE, QUERO ESTAR CONSTANTMENTE NA PRESENÇA DELE. DEUS NÃO É REFÉM DAS MINHAS ORAÇÕES, NÃO É PORQUE PEDI EM SÚPLICAS DE ORAÇÃO QUE ELE ATENDERÁ E NEM POR ISSO ELE DEIXA DE SER DEUS E DE AMAR O RAFA MAIS QUE EU.....MUITO MAIS, INFINITAMENTE MAIS.

Um dos momentos na UTI, com fios, acesso e a carinha de algo não vai bem.


domingo, 14 de fevereiro de 2021

SOLIDÃO!

Ser mãe é um processo solitário e repleto de emoções únicas. 

Mesmo estando com várias pessoas ao redor procurando auxiliar em todas as necessidades, gestar um filho, colocar no mundo, amar, cuidar são emoções únicas e exclusivas da mãe (devo admitir que nem todas agem da mesma forma).

Ter uma criança única e singular, como o Rafa, é viver esse processo de solidão elevado a muitas potências, um sentimento que tenho certeza, muitas mães vivem, por viverem situação semelhante a que vivo com com meu anjinho. A ocitocina, conhecida pelo hormônio do amor, dizem alguns estudos científicos, torna-se enorme quando o fruto do ventre é um sujeito tão magnânimo como o Rafa. 

É um amor que ao mesmo tempo não encontra espaço suficiente dentro mas também não explode causando estragos ao redor, fica retido, represado numa fonte única, numa relação tão intensa que me faz recordar o AMOR ÁGAPE, um amor incondicional, involuntário, atemporal, que não discrimina e não impõe condições.

Nessa relação tão única, a solidão é uma via obrigatória e impossível de evitar, pois os sentimentos são inumeráveis em relação ao Rafa, preocupações com o futuro, com o dia em que eu não conseguir cuidar dele, o medo de ficar doente e ele não me ter por perto, medo dele ser agressivo com outras crianças por não saber brincar como as outras crianças, medo dele ser mal interpretado, medo das pessoas não ter respeito e carinho por ele, medo da cirurgia que está para fazer... e nessa miríade gritante e silenciosa de sentimentos, mesmo que eu narre tudo para as pessoas que estão ao meu redor (minha rede de apoio), já sei o que dirão, racionalmente sei de todas as respostas, todos os comentários e palavras que procuram aconchegar minhas emoções.

Nenhuma é suficiente, pois emoções são emoções, a racionalidade não dialoga com as emoções.

Solidão! Esse é o sentimento que não posso me furtar de sentir, faz parte da minha caminhada com Rafa. Um percurso único, resgatador  e transformador.

Nessa jornada, Rafa consegue ver tudo que sinto, e isso me encanta. Esse fato não é um achismo materno, pois em todos os momentos em que me sinto vulnerável, em que parece ser impossível racionalizar e coordenar as emoções, Rafa chega e me abraça tão apertado, sapecando beijos na minha testa e no meu rosto, que chego à conclusão que Deus tem ensinado ele a me dizer sem nenhuma palavra: "mamãe vai ficar tudo bem!".

Um paradoxo sem dúvida.

Empatia. Essa é a palavra que deve definir a relação com o outro, ter empatia não é ter palavras de consolo para que os sentimentos amenizem ou deixem de existir, mas é ter a capacidade de se despir do próprio eu egocêntrico e se colocar no tempo/espaço do outro, ver com outros olhos.

Essa é a lição mais preciosa que tenho aprendido através da minha vivência com Rafa. É a resposta do Criador para muitas perguntas que faço.

Sentir e viver a solidão não é um problema, é um fato. Não vou rejeitar e negar sentimentos, pois aprendi desde que Rafa nasceu, que preciso experimentar e viver todas as emoções que nossa existência juntos me trouxer.

 


"PORQUE TENDES MEDO?!"

"PORQUE TENDES MEDO?!"  No dia 07 de junho desse ano, Rafa fez uma cirurgia para correção no quadril, estava com uma subluxação em...