"PORQUE TENDES MEDO?!"
No dia 07 de junho desse ano, Rafa fez uma cirurgia para correção no quadril, estava com uma subluxação em ambos os lados. Corria o risco do osso que conecta perna/quadril escapar do lugar. E se isso ocorresse ele sentiria dor e seria cirurgia de emergência.
Desconfio que ele já sentia algum desconforto ao andar por muito tempo, pois resmungava, parava no meio da caminhada e algumas vezes sentava no chão mesmo. Como Rafa não é oralizado, não consigo saber se de fato sentia dor.
Com todos os arranjos feitos para a cirurgia, a opressão passou a comprimir meu coração. Durante todo o mês de maio, essa angústia e o medo eram uma nuvem sobre a minha cabeça. Eu falava com Deus para não permitir que ele sofresse, depois falava de novo com Deus para colocar paz no meu coração, em seguida falava comigo mesma e perguntava onde estava minha fé.
Em alguns momentos a paz voltava a brilhar como sol espantando a nuvem escura, mas meu cérebro reiniciava o ciclo de angústia e medo ao pensar na cirurgia, para todos que me viam e convivem comigo meu rosto e minhas atitudes diziam estar tudo bem. Hábito não saudável que tenho de manter meus medos, angústias e incertezas guardados somente comigo (ando analisando os motivos que me levam a agir dessa forma).
Esse ciclo de tortura emocional perdurou todo o mês de maio, e uma certeza se instalou: seria complicado. Eu sabia de alguma forma que enfrentaria situações estressantes em relação ao Rafa, sabia que a cirurgia não seria simples (mesmo o médico afirmando que seria algo tranquilo....tranquilo com 3 horas de centro cirúrgico, anestesia geral e peridural).
O tempo todo eu falava: "Deus não deixa ele sofrer".
Internou no dia 06 a noite no hospital da AACD, deixei os outros dois filhos para trás com a rede de apoio sempre presente em nossa vida, trancamos a casa e fomos. Protocolos de covid, exames clínicos, e todos os procedimentos realizados, Rafa foi para o centro cirúrgico de camisolão, chupeta na boca e sonolento, subi com ele e meu marido ficou no quarto. Entrei no centro cirúrgico, vi colocarem a máscara, anestesista falou comigo, perguntou várias coisas, o médico falou comigo....Rafa dormiu com aquela máscara e me tiraram do centro cirúrgico.
Sai com toda dignidade de uma mãe devastada, meu coração ficou lá dentro com Rafa naquela mesa de cirurgia estreita. A partir daquele momento minha única atividade era olhar para o relógio e esperar o tempo correr, mas ele não correu...rastejou. Livro, celular, rede social, conversa...nada conseguia fazer minha atenção desviar de onde o Rafa estava.
Ao término das 3 horas, me preparei para alguém chamar, mas não chamou. 3 horas e meia, 4 horas, 4 horas e meia de cirurgia e nada de chamarem. Após 5 horas e alguns minutos que tinha entregue meu gordinho, finalmente me chamaram.
Fiquei numa salinha, agarrada ao triângulo que era para ser colocado entre as pernas dele. Tinha uma mãezinha comigo, e olhávamos pela janelinha de vidro da ante sala do "batedouro", esperando alguém falar alguma coisa. A outra mãe falou comigo, disse que ia ficar tudo bem, mas eu não conseguia ouvir direito. Após tanto tempo segurando tantas emoções, foi na salinha esperando meu Rafinha que comecei a chorar.
Angústia, medo, incerteza, aquela nuvem carregada do mês de maio, se apoderou como uma tempestade e perdi a capacidade de racionalizar, de falar para Deus devolver a paz. Naquele momento me tornei olhos turvos na janelinha, mãos em sudorese, taquicardia, nariz escorrendo por trás da máscara...a imagem de uma mãe que perdeu a luta do controle das emoções.
Até o médico vir falar comigo, que pode ter durado 10 minutos ou uma eternidade na salinha (depende de qual ponto vista), fiquei lá devastada. A outra mãe foi chamada eu fiquei até o Dr. Mauro vir falar comigo, dizendo que tinha corrido tudo bem, Rafa estava bem, nem tinha precisado de bolsa de sangue (Me perguntei as implicações disso e porque ninguém tinha me avisado dessa possibilidade).
Logo trouxeram meu gordinho, cheio de fios, tubo e uma parafernália digna de "medos". Saiu do centro cirúrgico direto para UTI, para ser monitorado por 24 horas.
A cirurgia levou um tempo maior que o previsto, pois consertar os dois lados do quadril foi mais trabalhoso do que acreditava o médico.
Minhas memórias do dia 07 de junho param nesse ponto. Vendo o Rafa sair com vários enfermeiros ladeando a maca, cheio de fios, tubo, monitor dizendo como estava a pressão, saturação, batimentos cardíacos e outros sinais que dizem sobre a vida. Depois disso, os momentos do dia 07 são como pequenos espasmos de memória: ele acordando, registro que ele não está como ele mesmo, meu marido trocando de lugar comigo, muitos remédios para conter a dor, enfermeiros afirmando que cirurgia em osso dói muito, Rafa ainda tentando entender o que tinha acontecido.....emoções subjugando a memória dos fatos.
Dia 08 logo cedo passou uma equipe multidisciplinar e decidiram que Rafa estava bem para ficar no quarto. E foi assim que iniciou outra jornada, onde novamente minha fé foi provada (ainda não sei se passei). Foi quando percebi que minha oração à Deus sobre essa cirurgia não foi atendida: Rafa começou a sofrer como o bom guerreiro que ele é.
Mas quero afirmar e deixar registrado que AMO DEUS, CREIO NELE, QUERO ESTAR CONSTANTMENTE NA PRESENÇA DELE. DEUS NÃO É REFÉM DAS MINHAS ORAÇÕES, NÃO É PORQUE PEDI EM SÚPLICAS DE ORAÇÃO QUE ELE ATENDERÁ E NEM POR ISSO ELE DEIXA DE SER DEUS E DE AMAR O RAFA MAIS QUE EU.....MUITO MAIS, INFINITAMENTE MAIS.

