Alguns dias atrás, o jornalista Jairo Marques, com todo seu estilo e estética poética escreveu um belo texto com o título "Coitadinhar".
Fazendo uma analogia com a palavra, descobri que o Rafa foi "coitadinhado". Aqui a palavra tem o sentido do olhar com "pena", "dó" para a pessoa com deficiência, se for criança então pode ser muito "coitadinhado".
O fato que me fez refletir sobre isso: Minha mãe, com toda a disposição que possui, acompanha o Rafa nas terapias de apoio enquanto trabalhamos (como ela faz questão de afirmar, para que ninguém venha supor que os pais abandonaram o criança com deficiência), numa dessas andanças, uma pessoa ficou olhando para o Rafa e começou a perguntar sobre ele para minha mãe.
As perguntas são sempre as mesmas: o que ele tem, onde estão os pais, se vai na escola, porque nasceu dessa forma....e essa pessoa resolveu perguntar o que ele gosta de comer.
Minha mãe estranhou a pergunta, mas respondeu, afirmando que ele não gosta de doces, refrigerantes, chocolate e todas as guloseimas que normalmente as crianças apreciam.
No momento da despedida essa pessoa deu R$ 10,00 para minha mãe, afirmando que era para comprar o iogurte que ele tanto gosta.
Minha mãe ficou na dúvida entre aceitar ou não, pois ela entendeu de imediato que o homem estava "coitadinhando" o Rafa, fato que causou horror e surpresa nela. Mas depois ficou imaginando que seria ofensivo não aceitar o "presente".
O presente tá guardado em casa, fiquei pensando o que fazer com ele.
Bobagem ficar refletindo sobre o que fazer com R$10,00?
Para uma mãe que se recusa "coitadinhar" o filho não é bobagem. Rafa não precisa de R$10,00, nem de R$50,00, R$100,00 ou qualquer outra quantia que é oferecida como forma de amenizar o profundo sentimento de "coitadinhar" uma pessoa com deficiência.
Rafa é uma pessoa criança, com necessidades especificas, que tem pais que trabalham bastante para suprir as necessidades dele e dos irmãos.
Rafa, pessoas e outras crianças com deficiência precisam que a sociedade se sensibilize para a causa da inclusão social, escolar. Estão no mundo, não podem ser ignorados ou "coitadinhados".
É temeroso pensar e ver que a sociedade oscila entre os dois pólos: ignorar ou coitadinhar as pessoas com deficiência.
Precisam ser vistos como PESSOAS, com toda a humanidade que todo ser humano singular apresenta.
PESSOAS HUMANAS, simplesmente pessoas humanas!
