"Para reconhecer o outro na condição de pessoa, não é preciso que ele veja o mundo como você vê, nem que distingua formas, rostos e cores com o olhar.
Mas é preciso vê-lo acreditando que ele é capaz de enxergar de outro jeito, mesmo que seus olhos não possam ver. Porque não ver não é impedimento para enxergar o mundo [...].
Não é preciso que compreenda tudo rápido como você compreende, nem que na pressa e na urgência dos outros deva se enquadrar, mas é preciso compreender e alcançar o ritmo de seu pensamento e o sentido do seu gesto, mesmo que ele seja mais lento e exija mais proximidade, mais atenção e mais ternura. Porque compreender devagar não é impedimento para aprender ou para compreender a vida [...]"
Laíse Rezende
Esse texto tive a oportunidade de conhecer nos dias em que o Rafael, com seu passo lento e ligeiro, ergueu as mãos ao céu e começou a andar sem segurar nas paredes.
Com exatamente 3 anos e 5 meses ele finalmente resolveu ter mais uma postura no espaço que ocupa.
Momento de felicidade inexplicável, parece estranho dizer como abracei e beijei ele, e isso parece que foi estímulo para prosseguir, fazia várias vezes, rindo ao encontro da minha voz para me tocar e ganhar abraços. Momento inexplicável; não é como quando minha Heloísa começou a andar, claro que fiquei feliz e fiz festa com ela, mas com o Rafa é outro tipo de conquista.
O guerreiro tem vencido alguns gigantes na vida dele. E quanto mais aprende mais se dedica naquela atividade, agora que descobriu a marcha, quando ele está andando tira minhas mãos do corpo dele para que realmente prossiga sozinho, ainda falta um pouco de equilíbrio e iniciativa, mas é inegável o ganho que está adquirindo.
Natália, a fisioterapeuta, vibrou de alegria tanto como nós.
Como posso ficar presa no tempo cronológico vendo ganhos tão significativos no desenvolvimento do Rafael?
Desde que ele nasceu tenho aprendido, dia após dia, a não temer o mar, tenho aprendido a crer no Deus vivo que nunca nos desamparou.
Nestes últimos meses, vejo dois grandes aprendizados acontecendo na vida do Rafa: começou andar e aprendeu falar mamã. Como diz no texto de Laíse: não é preciso que tenha urgência e pressa para se enquadrar nos padrões pré-estabelecidos socialmente.
Afinal, socialmente falando o Rafa já tem um pezinho fora dos padrões aceitos e ditos normais, agora estamos buscando mostrar que esses padrões não condizem para a condição de ser único, singular e complexo, não condizem para a condição de homem, como indivíduo.
Agora entendo a sentença: "É preciso mais que olhos para ver!"