Sem
palavras II
“Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a
existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se
tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de
superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas
reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto
parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem
excluídas a tolerância e a intolerância”.
José Saramago
As situações
que tenho exposto Rafa são quase sempre intencionais, com o objetivo de estimular
as potencialidades ou de colocar ele em confronto com aquilo que já sabe para
conseguir realizar o que ainda não sabe, numa tentativa de construção histórica
de si mesmo.
A
experiência do Rafa com as narrativas, com o discurso oral, com o sentido que se
emprega para linguagem na sociedade, é nula. Parece que existe uma
intencionalidade comunicativa na maneira como se comporta e emite alguns
pequenos sons (todos bastante parecidos uns com os outros). Porém, não articula
nenhum discurso, nenhuma frase, simplesmente algumas palavras que dentro do
contexto doméstico e escolar em que ele vive, faz sentido.
De Adão
a Noam Chomsky, a linguagem é entendida por filósofos linguistas como o signo
da atividade mental, ou seja, uma manifestação de estruturas complexas que
caracterizam a atividade cognitiva humana.
Podemos esperar aprender algo sobre a
natureza humana; algo significativo, se de fato [a linguagem] é verdadeiramente
representativa e a mais notável característica das espécies. Notemos ainda que
não é despropositado supor que o estudo desta realização humana – a capacidade
de falar e compreender uma língua - pode servir de modelo sugestivo de
investigação noutros domínios da intuição e ação humanas que não se apresentam
tão convidativos à observação direta. (CHOMSKY, 1976, p. 11).
Rafa
então, questiono eu comigo mesma (poque em relação ao Rafa sou eu minha única interlocutora,
estabeleço constantes diálogos responsivos comigo mesma), apresenta que tipo de atividade cognitiva humana?
Sim, ele
apresenta atividade cognitiva. Ele aprende o que é ensinado, talvez não na
primeira aula, mas acaba aprendendo o que é constantemente explicado, discursado,
como aprende, como entende alguns discursos, em que complexidade? Questões que
não tenho resposta, que os médicos e profissionais envolvidos na vida dele não
podem responder.
Qual o
objetivo de significar o sentido da aprendizagem do Rafa? Muda o quê na vida
dele?
Sendo a
linguagem um dispositivo que perpassa e estabelece significado na esfera social,
o sentido atribuído para colocar em palavras a atividade cognitiva mental, é
essencial. Porém, não consigo e não posso estabelecer até onde a cognição “rafaiana”
caminha.
Quem
pode entender e dizer sobre a singularidade e aspectos “Rafaianos”?
Uma “persona”
tão peculiar esse meu Rafa. Questiono ele: “Quem é você Rafa?”
Na ausência
de resposta encontro refúgio nas leituras, estudos, reflexões que realizo sobre
o menino que nasceu tão diferente. E sendo ele diferente assim, me encanta ser a
diferença entre meus iguais, me encanta ter a compromisso amoroso de sermos um,
sendo nós dois tão diferentes ainda assim iguais.
CHOMSKY, Noam. Reflexões
sobre a Linguagem. Lisboa: Edições 70, 1976.

