Não posso usar de falsa modéstia em algumas questões.
Por exemplo: conheço os olhares lançados sobre e para meu filho. Algumas pessoas podem até dizer que acham tudo lindo, algumas de fato acreditam que tudo é lindo. Esse olhar é reflexo da minha postura diante das adversidades que enfrentamos.
As pessoas me dizem que não me veem de cabeça baixa....apesar de tudo. Não sei o que é esse TUDO.
Falando de olhares volto à cena congelada do dia 02/01, em que estava na clínica do otorrino e o Rafa foi escolhido pelo João.
Uns momentos antes de conhecermos o João, Rafa estava ansioso para ir embora, procurava a porta de saída e eu segurando a mão dele e dizendo que logo iríamos embora.
Enquanto falava com Rafa um homem se aproximou, parou me encarando. Olhei e tive certeza que já havia visto aquele rosto em algum lugar, mas não lembrava onde. Felizmente a memória dele foi melhor que a minha.
Perguntou se eu era irmã da Natalina, respondi que sim. Ele disse o próprio nome: Matteo. Imediatamente lembrei do estudante de pós graduação que andava comigo no ônibus, voltando da faculdade. Nesse tempo, já estava casada, mas ainda não sonhava com filhos, sonhava em acabar meu curso sem estender para cinco anos.
Matteo tem formação humana sólida, sei disse, pois ele é da área da filosofia.
Apresentei o Rafa e vi o olhar dele: curiosidade pelo milagre da vida, talvez curiosidade para ver quem é o Rafa.
Em tempo: Matteo, apesar de estar no Brasil há muitos anos não é brasileiro, é italiano.
Talvez isso explica o olhar não preconceituoso para o Rafa. Não consegui dar todas as explicações genéticas e médicas que envolvem a singularidade do meu amore, pois logo ele foi chamado para o consultório do médico.
Esse acontecimento me fez pensar sobre a formação social intrincada na sociedade brasileira. Como é possível falar de inclusão escolar se a inclusão não acontece na sociedade?
Existe uma politica e legislação nacional pela e para inclusão, onde investimentos em materiais, salas de recursos são realizados sem economia, porém não há investimento na formação, na (des)construção da pessoa humana que estará na escola para receber os estudantes público alvo da educação especial.
Bonito falar de diversidade, inclusão, barreiras arquitetônicas, mas quem está disposto a trabalhar com uma criança com deficiência?
É preciso trabalhar e investir em formação humana, sensibilização da sociedade. As pessoas e crianças com deficiência estão em todos os lugares, com suas peculiaridades com toda sua humanidade, com qualidades e defeitos.
É necessário olhar o ser humano e não a deficiência. Matteo, a mãe do João e o próprio João olharam para meu menino humano, pessoa apaixonante e apaixonado pela vida.
Rafa tem deixado pedaços dele em mim, como no texto de Cora Coralina: sou feita de retalhos, um tecido inacabado, que a cada encontro, a cada experiência vivida vai se tornando mais completo, porém nunca acabado.
Tenho vários pedaços de Rafa em mim.
#pracegover: Eu encostada na cabeceira da cama com Rafa deitado de bruços sobre mim, está com a cabeça virada de lado e a mão fechada, nós dois estamos sorrindo.
