Nessa semana levei o Rafa no otorrino, consulta de rotina. Sempre somos estrangeiros lá, não somente naquela clínica.
Em qualquer consultório que vamos somos estrangeiros, isolados (sem exagero materno e sem nenhum tipo de ressentimento), ele causa estranheza. O que não conhecemos causa olhares descrentes, alguns piedosos, outros escandalizados, outros com pena, outros ignoram....qualquer dia escrevo sobre esses milhões de olhares que recebemos.
Não sou cega, e aparentemente não tenho nenhuma deficiência, mas sou a mãe do deficiente e portanto entro com alegria e prazer no mesmo pacote de olhares que são lançados sobre meu filho.
Em nossas andanças, como já comentei, as pessoas não falam conosco, embora olhem muito para nós. Rafa não se permite ser ignorado, anda pelo lugar tateando e quase sempre procurando a porta para ir embora (detesta médicos e alguns garantem que ele vê o jaleco branco e o estetoscópio).
Se escuta a voz de alguém mais que depressa procura a pessoa para encostar, cheirar, tatear, ou seja, para ver quem é. Nem sempre as reações são positivas. Imagine uma madame, num salto enorme, mega perfumada, mega chique, e o Rafa ao lado tentando ver a dita senhora, um transtorno, pois a madame se esquivava dele e eu precisando assinar a ficha e segurar ele para não desmanchar a beleza rara da dita senhora. Situação cômica, pensando friamente.
Enfim, no dia 2 de janeiro desse ano, segunda-feira, no otorrino, haviam poucas pessoas. Mas o mesmo se repetiu, olhares, curiosidades, distanciamento.
Como o médico estava atrasado, Rafa ficou impaciente e começou a andar, fui junto com ele. Então surgiu um menino que escolheu o Rafa, se aproximou, tocou, falou com ele. A mãe do menino foi junto, de uma sensibilidade infinita, num carinho lindo com Rafa, que logo deu a mão para essa senhora e foi se afastando para brincar com o menino.
Esse menino, João, de 7 anos, ficou o tempo todo ao redor do Rafa, desde que entrou na clinica, a mãe dele, uma mulher cativante ia ajudando na interação, sorriu para mim eu sorri para ela. Não conversamos, somente nos olhamos e ela disse que o filho dela era João e eu disse que meu filho era Rafael. Só isso que falamos, o restante da interação foram olhares, toques e sorrisos. Uma interação num curto intervalo de tempo, mas cheia de sentidos.
João escolheu o Rafa porque é menino sensível que viu além dos olhos dele. João é menino com Síndrome de Down, com uma linguagem em construção, como o Rafa, mas com um olhar de águia. Não se aproximou de nenhuma outra criança, não quis ir perto dos brinquedos que ficam num cantinho da clínica, queria estar perto do Rafa.
A mãe do João se viu em mim e eu me vi nela, sem palavras nos entendemos com os olhares trocados, ela conhece minhas lutas e eu as dela. Foi instantânea a empatia que sentimos uma com outra, ela não perguntou o que o Rafa tem, o que provocou a cegueira, os motivos do atraso no desenvolvimento, a mãe do João abraçou o Rafa e aprovou de imediato a escolha do seu filho.
Sensibilidade assim não é fácil de encontrar. Será que somente mães que passam por lutas semelhantes são capazes de ver o menino e não a deficiência?
Isso não é uma crítica, mas uma constatação. Eu mesma se não vivesse o que vivo hoje com Rafa, como agiria diante de uma criança com deficiência?
Não sei!
O que sei: é preciso ver o ser humano antes de ver a deficiência. Ignorar também não é o caminho. Não tenho problema algum em falar sobre o Rafa e as singularidades dele.
Anjos como ele e o João tem muito a ensinar.
Chorando litros!!! amei!!! lindo de mais!!!!
ResponderExcluir