quarta-feira, 6 de março de 2019

O dia da festa!

A festa foi linda!
Rafa nunca foi numa festa.
Quando ele nasceu não tinha interesse nem disposição de expor ele à festas. Muitos curiosos queriam olhar ele para ver como é um bebê sem "zoio". 
Naquele período em particular era tudo muito complicado. Meus sentimentos, meus pensamentos, meu amor por ele, tudo estava sendo construído, para isso eu me tornei uma ilha pequena, onde não era possível existir muitos acontecimentos, nem muitas pessoas.
Era um isolamento necessário para reconstruir as emoções, para construir a mãe do Rafael.
Essa construção não acabou, como disse Paulo Freire: "Somos seres inacabados em constante construção".
E assim vou sendo re-construída constantemente pelo Rafa. Meu lindo guerreiro!
Quando Rafa ficou maior, ele não aceitava situações de festas, até mesmo pequenas reuniões de família incomodava ele, chorava, se angustiava muito.
Ambientes com som alto era impensável. Eu e o pai dele, na medida do possível, frequentávamos as reuniões de família mesmo com o choro. Inconstáveis vezes ficávamos sentados nós dois em algum cantinho, tentava amenizar o sofrimento dele com colo e palavras de carinho, muitas vezes tinha vontade de ir embora, mas pensava que assim ele nunca se adaptaria à tais situações.
Em festas maiores, ou recusávamos o convite, ou ia somente um de nós  com Gabriel e Heloísa, ficando o outro com Rafa. Muitas vezes, minha mãe ficou com ele para irmos nós dois com os outros dois filhos, sempre tive a preocupação de não privar Gabriel e Helo de viver e experimentar situações e ambientes novos pela dificuldade do Rafa.
Rafa está com 8 anos e nos últimos meses percebemos uma capacidade muito maior de adaptação à novos ambientes, até mesmo à locais com barulho. A capacidade dele, de entender o que se passa ao redor, é digna de um guerreiro.
E assim, minha cunhada e meu irmão fizeram o convite para ele ser pajem da renovação dos votos de casamento deles. Teve uma cerimonia religiosa e depois a recepção. 
Realizamos alguns ensaios com Rafa, para se familiarizar com o ambiente da igreja, minha cunhada pediu para a decoração deixar sem o tapete vermelho, pois nos ensaios não tinha tapete, assim Rafa não estranharia a textura e não correria o risco de tropeçar e cair.
E o grande dia chegou. Construí o plano B.
Estávamos como padrinhos, não pude ficar lá fora esperando a entrada dele, mas ficou com pessoas que ele confia e ama (meu irmão e minha mãe). 
E quando iniciou a música de entrada dele meu coração foi a mil, imaginava que ele poderia se jogar no chão e não entrar. Heloísa, que entrou com ele, estava insegura e com medo dele se recusar a andar, teve medo dele ficar nervoso e querer morder ela, acalmei os nervos dela dizendo que qualquer situação errada eu iria ao encontro deles. Esse era meu plano B.
Ele foi lindo!
Um perfeito pajem, entrou segurando a mão da irmã, andando como fez nos ensaios. Igreja cheia, com burburinhos de pessoas, e ele foi lá e mostrou um pouquinho quem é o Rafa.
Mamãe quase morre de emoção! Mas não morri.
Na recepção, apesar de todos os estímulos, de tanto barulho, ficou sentadinho prestando atenção ao que se passava ao redor.
E assim foi a primeira festa do Rafa, aos 8 anos de idade!
Ele não comeu nada, não bebeu. As situações novas sempre desorganizam ele e se recusa a comer, mas não me preocupei, pois havia jantado em casa.
Nas próximas festas ele vai comer, o céu é o limite para meu menino. Acredito nele, na inteligência dele e as terapeutas também acreditam e investem nesse desenvolvimento, que acontece no tempo dele. Não  num tempo linear e convencional.
Ter um menino como Rafa é ceder à padrões pré estabelecidos e ver além do diagnóstico.






Um comentário:

  1. Rafa ensinando a todos nós, cada dia que passa.
    Amo demais esse lindão. ❤️

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