sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sem palavras II


Sem palavras II

Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância”.
José Saramago

As situações que tenho exposto Rafa são quase sempre intencionais, com o objetivo de estimular as potencialidades ou de colocar ele em confronto com aquilo que já sabe para conseguir realizar o que ainda não sabe, numa tentativa de construção histórica de si mesmo.
A experiência do Rafa com as narrativas, com o discurso oral, com o sentido que se emprega para linguagem na sociedade, é nula. Parece que existe uma intencionalidade comunicativa na maneira como se comporta e emite alguns pequenos sons (todos bastante parecidos uns com os outros). Porém, não articula nenhum discurso, nenhuma frase, simplesmente algumas palavras que dentro do contexto doméstico e escolar em que ele vive, faz sentido.
De Adão a Noam Chomsky, a linguagem é entendida por filósofos linguistas como o signo da atividade mental, ou seja, uma manifestação de estruturas complexas que caracterizam a atividade cognitiva humana.
Podemos esperar aprender algo sobre a natureza humana; algo significativo, se de fato [a linguagem] é verdadeiramente representativa e a mais notável característica das espécies. Notemos ainda que não é despropositado supor que o estudo desta realização humana – a capacidade de falar e compreender uma língua - pode servir de modelo sugestivo de investigação noutros domínios da intuição e ação humanas que não se apresentam tão convidativos à observação direta. (CHOMSKY, 1976, p. 11).
Rafa então, questiono eu comigo mesma (poque em relação ao Rafa sou eu minha única interlocutora, estabeleço constantes diálogos responsivos comigo mesma), apresenta que  tipo de atividade cognitiva humana?
Sim, ele apresenta atividade cognitiva. Ele aprende o que é ensinado, talvez não na primeira aula, mas acaba aprendendo o que é constantemente explicado, discursado, como aprende, como entende alguns discursos, em que complexidade? Questões que não tenho resposta, que os médicos e profissionais envolvidos na vida dele não podem responder.
Qual o objetivo de significar o sentido da aprendizagem do Rafa? Muda o quê na vida dele?
Sendo a linguagem um dispositivo que perpassa e estabelece significado na esfera social, o sentido atribuído para colocar em palavras a atividade cognitiva mental, é essencial. Porém, não consigo e não posso estabelecer até onde a cognição “rafaiana” caminha.
Quem pode entender e dizer sobre a singularidade e aspectos “Rafaianos”?
Uma “persona” tão peculiar esse meu Rafa. Questiono ele: “Quem é você Rafa?”
Na ausência de resposta encontro refúgio nas leituras, estudos, reflexões que realizo sobre o menino que nasceu tão diferente. E sendo ele diferente assim, me encanta ser a diferença entre meus iguais, me encanta ter a compromisso amoroso de sermos um, sendo nós dois tão diferentes ainda assim iguais.

CHOMSKY, Noam. Reflexões sobre a Linguagem. Lisboa: Edições 70, 1976.



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