Após o nascimento do Rafael iniciei meus estudos sobre bebês que nascem cegos.
A primeira lição que tive foi sobre a Teoria do apego, ou seja, a teoria da formação de vínculos afetivos entre mãe e filho. Ficava pensando como fazer o Rafa entender que o aceitava e amava como era, já que o olhar é fundamental para construir essa interação entre mãe e filho.
Resolvi usar a voz e o toque (afinal não tinha outra opção). Cuidava, e cuido, dele com o maior carinho, dedicação e atenção, sempre conversando e dizendo as cores das roupas, dizendo que estava muito bonito. Lembro que com uns 7 meses, todas as vezes que o arrumava para sair, enfatizava muito que estava lindo com aquela roupa e ele ria muito e se agitava mostrando felicidade.
Quando ele fez 7 meses voltei trabalhar, o dia inteiro, minha mãe passou a cuidar dele e leva-lo na instituição de readaptação e também na clinica em que é acompanhado com a T.O. Neste momento não imaginei que talvez o laço construído com minha mãe fosse similar ao que deveria ser construído comigo, pois deixei a Heloísa com quatro meses para trabalhar e construímos um forte laço afetivo.
Com o passar do tempo verificamos um certo atraso na linguagem (tenho dúvidas sobre esse atraso, pois as crianças são singulares, únicas e tem seu próprio tempo de aprendizagem). Então qualquer som emitido era festa.
A primeira palavra significativa que ele falou foi: BOBÓ, chamava bobó o tempo todo. Não me aborreci, pois sempre tive convicção que construí uma ótima relação afetiva com o Rafa, então ele resolveu soltar outra palavrinha: PAPÁ, para chamar o pai.
Bobó e papá não saiam da boca dele, eu pensava: "Esse menino não vai falar mamãe?" Depois falou outras coisas sem sentido, outras com sentido, como água, bó para bola e nada de mamãe.
Piorou a situação quando engravidei do Gabriel e aos 4 meses de gestação não pude mais pegar o Rafa, pois tive algumas complicações. Era somente o papai e a vovó que cuidavam dele, minha irmã até dizia: "Ele vai ficar ainda mais grudado com o pai, mesmo depois do Gabriel nascer".
Após o nascimento do Gabriel fiquei muitos meses em casa, cantei, brinquei, cuidei e finalmente aos 3 anos de idade Rafa começou a sentir falta da mamãe, chorava quando eu precisava sair, e finalmente falou mamã. Não posso negar que fiquei muito feliz.
Palavra tão doce aos meus ouvidos saindo da boca dele, agora me procura nos cantos da casa em que sempre fico, chamando mamã. Ele sabe onde gosto de sentar para escrever, estudar e meu lado da cama; não me encontrando em nenhum destes locais vai para cozinha e área de serviço.
Lembrando disso tudo me sinto feliz por ter construído o tal do apego com o Rafa, ficava confusa quando lia que muitas mãe se recusam a cuidar dos próprios filhos por nascerem deficientes, por não suportarem a dor de olhar para um filho que não foi o sonhado. Sempre me recusei a ser esse tipo de mãe, entendi que ele deveria ser amado para amar, ter carinho para demonstrar carinho, receber beijos e abraços para aprender fazer o mesmo.
Atitudes óbvias na relação mãe e filho, porém não é da mesma maneira para um bebê que nasce cego, ele não aprende com o olhar, mas com a experiência vivida, sentida.
Nosso apego hoje é como o apego que tenho com a Heloísa e o Gabriel.
Meu anjo Rafa, amor infindável.
Tb tenho um filho de seis anos, me vejo nas suas historias, mesmas situaçoës,mesmos sentimentos.
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