"É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança."
Esse é um provérbio africano, muito conhecido e amplamente ventilado em comunidades educativas.
Diz sobre a responsabilidade coletiva pela aprendizagem e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Um fato já discutido em teorias educacionais como de Lev Semyonovich Vygotsky. (Um dos psicólogos pioneiros no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições do meio em que vive).
Acredito nessa teoria e vivencio ela em minhas atividades profissionais na escola.
E Rafa tem uma aldeia?
Desde que ouvi o provérbio, essa pergunta ecoa no meu coração, na minha cabeça.
Tenho procurado a aldeia dele.
De quantas pessoas se faz uma aldeia?
Procuro na "aldeia" do Rafa pessoas para conversar, compartilhar, trocar, falar, contar, explicar, dizer quem ele é, dizer quem sou eu como mãe, minhas angústias...meus "mapas".
Sim, tenho um mapa no rosto que diz os caminhos que tenho percorrido em nossa ilha desde que ele nasceu, pois somos ilha, não temos uma aldeia. Cada marquinha desse mapa é repleta de significados e aprendizagens, nem por isso menos pesado, sofrido, suado, muitas vezes angustiado.
Quando vejo mapas iguais ao meu, sei os caminhos percorridos, conheço como ir e como voltar, quando o caminho é suave e quando é penoso.
Sei que muitas vezes nesse caminho não há quem percorra junto: só eu e ele, talvez alguém esperando no fim da jornada.
Não tendo uma aldeia, quero ser aldeia dele, o sol, o vento, a água, todos os elementos essenciais para viver, para educar e.....vou falhar muitas vezes. Como posso ser aldeia quando na verdade sou uma ilha?
Ele precisa de uma aldeia. A escola não pode desempenhar esse papel sozinha, pois corre o risco de ser também uma ilha, as terapeutas não podem ser aldeia dele, nem o papai nem a vovó.
"É preciso uma aldeia INTEIRA para educar uma criança".
É preciso ser aldeia em todos os espaços, na escola, na igreja, no mercado, no shopping, na viagem de férias...a sociedade precisa ser aldeia.
Eu preciso ser aldeia nos espaços sociais que ocupo.
É para isso que existem tantas leis para acessibilidade e inclusão no Brasil: para sermos aldeia.
As pessoas não conseguem entender nem ver tamanha a singularidade do Rafa, querem formatar ele em algum nome, algum prognóstico. Mas ele não entra, não entra por ser único, sujeito único mesmo. Porém, não menos humano que todo sujeito único que constitui a humanidade terrena.
Sei que vou falhar muitas vezes nesse processo de lutar para ser aldeia dele, sei que não vou conseguir ser aldeia dele.
Mesmo sendo ilha não cansarei de lutar para ser aldeia do Rafa, e nesse processo tenho ficado marcada e deixado marcas.
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