Olhe o mundo com a coragem
do cego, entenda as palavras com a atenção do surdo, fale com a mão e com os
olhos, como fazem os mudos!!
Cazuza
Lendo
e estudando sobre diálogos, interlocuções, interações entre sujeitos, gênero do
discurso e linguagem, minha amígdala foi sequestrada (amigdala é uma pequena
parte do cérebro). Esse sequestro, já enunciado em todas as minhas interações
intelectuais e emocionais, se justifica através da minha relação
de simbiose com Rafa.
Já escrevi sobre essa
simbiose. Não sei onde ele termina, onde eu começo. Dados de pesquisa, que
relatei no blog em 9 de novembro de 2018, afirmam que mães produzem o hormônio
ocitocina, que denominaram popularmente de “hormônio do amor”. Esse hormônio é
duplicado em proporções imensuráveis quando esse filho nasce com deficiência,
isso gera a simbiose.
Rafa não articula nenhum tipo
de discurso, no alto dos seu 9 anos não é considerado um menino verbal. O que
diria os linguistas sobre ele, dado que se comunica não verbalmente?
Deveria eu trabalhar um tipo
especifico de linguagem com ele? Como libra tátil? Mas ele ouve, escuta e é
capaz de interagir com o outro sem emitir nenhum tipo de discurso oral. Que ser
humano peculiar e singular é esse Rafa?
Se a linguagem existe em
função do uso de locutores e interlocutores em situação de comunicação, concluo
que o Rafa tem um círculo bem pequeno de interlocutores, pois quem entende a
linguagem dele sou eu, o papai e a vovó. Sim, o contexto da linguagem dele é
estritamente doméstico.
Em outros tempos isso me
angustiava, como ele vai conseguir expressar sentimentos, necessidades para
pessoas fora do contexto familiar?
Não sei!
Hoje essa resposta deixou de
ter significado. A palavra não verbal do Rafa é cheia de significados, vivemos
ilhados numa simbiose profunda, onde aspectos da eternidade e do futuro não nos
pertence. Ele enuncia em condição de igualdade comigo, com papai e vovó. Nós
três vamos a ele, estabelecemos o diálogo com ele em condição de igualdade.
Quem disse que ele precisa
viver no meu mundo insano e louco? Onde as relações humanas estão fragilizadas
e superficiais? Onde tem se perdido a essência e singularidade que define o ser
HUMANO?
Rafa consegue viver e ver o
que as palavras não dizem, consegue escolher entre achegar, abraçar, afastar,
morder e beliscar aqueles que considera nocivos ou não à existência pura e
natural dele. Me aconchega nos braços dele, me aperta e me arrocha, depois
desce e sobe a mão na minha cabeça, numa menção de carinho tão peculiar dele.
Sem palavras, sem som ele fala mais que mil palavras.

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