domingo, 10 de novembro de 2013

Ele é cego, ele é cego, ele é cego!

Daqui 5 dias o Rafa fará 3 anos. Não posso deixar de viver um "flash back" ou uma analepse (retorno ao passado).  Revivo o momento crucial em que meu marido, junto com minha mãe, ainda na maternidade, disseram que o Rafa não abria os olhos, e isso  poderia ser consequência de uma microftalmia, enoftalmia ou ter a fenda pregada.
Não esbocei reação nenhuma, não chorei, não falei nada, não perguntei nada....só uma voz que gritava na minha mente: "Ele é cego,  ele é cego, ele é cego".
Lembrei da única pessoa cega que tive contato em toda minha vida, Viviane, que frequentou 2 ou 3 anos de faculdade na mesma turma que eu, porém eu nunca falei com ela, nunca perguntei o motivo de ter nascido cega, nunca ofereci meu braço para auxiliá-la na saída da sala de aula. Pensava como ela era, como se comportava para imaginar como seria a vida do Rafael.
Deitei na cama, fechei os olhos, não dormi. Pensei no meu irmão, crente, homem de fé e liguei à ele para que orasse pelo Rafael, neste momento chorei, lá fora, no corredor da maternidade, sozinha, queria ficar sozinha, queria chorar sozinha, pensar sozinha. Meu irmão disse que mandaria o pastor Vagner lá para fazer uma oração conosco, pediu pra eu ficar calma, mas não dava.
Homem de Deus esse Pastor, chegou lá e falou do amor dos pais pelos filhos, independente como é esse filho. Eu queria que ele dissesse que o Rafael não era cego, que Deus faria um milagre naquele momento e ele abriria os olhos....mas só falou do amor e isso nunca mais esqueço, eu bebia as palavras dele, ansiava por uma luz. Acho que essa luz se resumiu em uma única frase: AMOR PELOS FILHOS.
Depois disso entramos no olho do furacão, uma maratona de exames, perguntas, questionamentos: tomei remédios durante a gestação? Usei drogas ilícitas? Fiz pré-natal? Exames de ultrassonografia?....Enfim, os médicos queriam saber os motivos, eu também queria. Respondia todas as perguntas, nunca fumei, nunca fui alcoólatra, não tomei remédios durante a gestação, fiz pré-natal, a primeira filha nasceu saudável e vidente.
O fato é que tive um luto agitado, mas sabia que precisava ficar em pé, por ele e pela Heloísa, pela minha mãe, pelo meu marido, pelas pessoas que amo.
Não queria o Rafael, não foi o filho que sonhei, cuidava dele impulsionada pela responsabilidade. Deus, em sua infinita misericórdia, confortou nossos corações, foi aos poucos mostrando os caminhos a seguir, mostrando vários profissionais competentes naquele início de jornada. Hoje vivo cada minuto da vida do Rafael com muita intensidade, amando imensamente meu filho, cuidando, zelando, lutando e ensinando ele.
É meu filho mui amado, não concebo minha vida sem ele.

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