Quando me disseram que o Rafael, provavelmente era cego, essa palavrinha pipocava na minha cabeça, mas não conseguia pronunciá-la: CEGO, CEGO, CEGO.
Eu não conseguia me referir à ele dessa forma, dizia que ele nasceu com uma "complicação nos olhos", que não enxergaria, inventava outras palavras e outros termos.
Porém, na busca por informações sobre cegueira, li algumas definições sobre como tratar um cego e como se referir ao mesmo. Dizia que não dói, não é preconceito nem pecado dizer CEGO, que este é o termo empregado para aqueles privados da visão.
A partir desse dia, passei a dizer: "Ele é cego!". Algumas pessoas chegam, brincam com ele e depois dizem: "Ele está com conjuntivite?" ou "Ele está com sono?"; respondo sem rodeios: "Não, ele é cego!".
Certa vez, andando no shopping uma mulher se encantou pelo Rafa e fez a famigerada pergunta: "Ele está com conjuntivite?" eu respondi: "Ele é cego!".
A mulher começou a chorar, fiquei sem graça, não sabia o que dizer à ela, então falei que éramos felizes, que ele é um menino saudável.
Este fato também aconteceu na comemoração do aniversário de 2 anos dele, fomos à uma churrascaria. Colocamos ele na cadeirinha e logo o garçom perguntou se ele estava com conjuntivite, e dei minha resposta educadamente, o homem ficou desmontado, então tentei consertar dizendo que ele fazia 2 anos naquele dia e que estávamos comemorando. O garçom saiu e veio outro nos servir.
Aprendo que as pessoas, até eu mesma, não estão preparadas pra verem bebês cegos, surdos, com parilisia cerebral...enfim, nossa sociedade não é formada pra receber ninguém que é diferente dos padrões construídos historicamente, cabe à essas pessoas, às famílias dessas crianças cavar um espaço na sociedade e essa, tenho certeza, que será minha luta.
Segue uma foto do Rafa na churrascaria, comigo e com a Heloísa:

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