Hoje devo falar do meu primeiro tesouro (o Rafa, por ordem de nascimento, é o segundo): Heloísa.
Quando o Rafa nasceu ela tinha quase 4 anos. Foi me buscar na saída da maternidade e a primeira pergunta que me fez, sem que ninguém tivesse contado nada à ela, foi sobre os olhos do Rafael, achei a oportunidade que precisava pra falar da cegueira dele, é claro que falei disso com ela segurando as lágrimas, pois percebia pelas perguntas que ela não compreendia muito bem aquele fato.
Terminei o assunto com ela (achava naquele momento que havia terminado), dizendo que Deus havia mandado ele daquele jeito e que iríamos amá-lo da mesma maneira.
Lembro do sorrisão dela me olhando e olhando ele. Essa pequena menina foi minha grande força no começo daquela luta, daquele luto.
Meu querido médico obstetra veio falar comigo, no dia da alta, com duas receitas: um analgésico e um antidepressivo; este último eu disse imediatamente que não tomaria, pois se Deus havia me dado aquele menino eu saberia o que fazer e como fazer.
No auge daquela confusão de pensamentos e sentimentos que procuravam me arrastar para a escuridão (para algum tipo de cegueira), eu tinha claro isso que falei pro Dr. João e também tinha certeza que precisava ser e estar firme pela Heloísa, mais por ela que pelo Rafa.
Nunca, em nenhum momento, deixei ela ver minha tristeza, minhas preocupações, o mundo nebuloso que vivia naqueles dias. Sempre sorria pra ela, conversava, contava história, levava pra escola, saia pra passear com ela e até consegui cantar parabéns pra ela no dia que fez 4 anos, 13 dias depois do nascimento do Rafa.
Preocupava muito a aceitação dela com o irmão, pois ela queria uma irmã, quando soube que era um menino ficou inconsolável, quando soube então que era um menino cego.....ela também passou por um certo luto, questionava sempre o motivo dele ser cego. Travei uma luta emocional com ela, sempre conversando, explicando, mostrando imagens de cego, como a Dorinha da turma da Mônica.
Ao recordar tudo isso, parece tão longe e tão perto e vejo que tenho colhido bons frutos. A Heloísa também é guerreira, assim como o Rafa.
As cenas da minha guerreira junto ao meu guerreiro ainda são muitas a contar.
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